( In)Disciplina e trauma
O último alvoroço envolvendo o
ENEM desta vez calhou de estar bem perto de nós. Uma renomada instituição gerou
frisson midiático por supostamente ter privilegiado seus alunos com 14
questões da prova do exame nacional. A
escola nega veemente má fé no ocorrido e culpa alguma coincidência infeliz de
ter as questões em seu vasto banco de dados. Verdade ou mentira tal fato evidencia que
algo vai mal na educação de nossos jovens. É curioso que o slogan da referida
instituição afirme categoricamente que se trata de um colégio completo. O que está subscrito neste slogan evidencia
uma tendência que contamina a maioria das escolas, notadamente as de ensino
privado que seguem a lógica mercadológica da eficácia e eficiência máximas. Freud, sempre
atento aos impasses culturais, coloca a educação como uma tarefa impossível,
pois domesticar por completo a desmesura do ímpeto humano é impraticável: somos seres essencialmente
insatisfeitos e, portanto fadados a fracassar sempre que acreditamos ter a
satisfação absoluta ao nosso alcance. Dizer que é impossível educar não
invalida o ofício, mas chama a atenção de que não há como alcançar perfeita
harmonia quando se trata do convívio na sociedade dos homens. Educar,
primordialmente é estabelecer limites, fronteiras de possibilidade para que a
criança ou adolescente tenha referenciais consistentes de onde partir e
incluir-se em uma ética de convivência. As escolas
completas oferecem aos seus alunos
toda tecnologia possível com o objetivo de tapar todos os furos no processo de
aprendizagem: lousas 3D, i-pads e a onipresente internet conectando o aluno a
uma infinidade de conhecimentos. Tudo aponta para completude, para um projeto
pedagógico capaz de formar o aluno ideal. A publicidade sabe muito bem disso quando abusa
da ilusão de que sabe quais os bens que devem ordenar a satisfação de nossas
necessidades. As escolas apostam tudo
nas inovações tecnológicas com a promessa de que o impossível está finalmente
ao alcance de seus alunos. Entretanto, uma educação que nega a presença de um
limite para nossas ilusões narcísicas de onipotência só pode ter como
consequência atos perversos que subvertem a ética reafirmando o velho ditado de
que “os fins justificam os meios”. Não me causa espanto que tenha sido logo no colégio completo que as questões “vazaram”,
pois só há completude para quem burla as regras do jogo, fora disso um dia se
vence no outro se perde. Não cabe a mim passar julgamento sobre o dolo da
escola no ocorrido, mas simplesmente deflagrar o escândalo. Se este fato servir
para abalar a confiança dos alunos na onipotência da escola como lócus de
saber, então esta nova crise do ENEM não foi em vão. O site do MEC informa que alunos da própria
escola afirmaram ter recebido as questões em
off com instruções claras de não compartilha-las com candidatos de outras
escolas. Ora, a saia justa que por hora passa a escola foi a melhor lição que
seus alunos tiveram em 2011: se o efeito for traumático para os envolvidos, tanto melhor! Se o trauma servir para legitimar o lugar da
lei e do limite na construção do senso ético destes jovens já terá cumprido sua
função principal que é furar nossa tão preciosa ilusão de completude.
2 Dizeres:
Disse tudo! Ótimo.
Será que vale tudo para formar supostos vitoriosos? Será que vale tudo para vencer a concorrência? Será possível, se assim for, que se percebem que em vez de vitoriosos formam-se novos delinquentes?
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