16/10/2011

SALVAÇÃO


Chega-se num ponto quando não é possível mais escrever mentiras. O verdadeiro escrito é aquele que nasce de uma necessidade inescapável, aquele que brota de uma verdade forjada no próprio fogo de uma existência. Palavras buriladas numa vida que quando se descobre nua de destinos imagina pelos dedos os destinos que lhe foi negado. Assim é que Minh ‘alma se recusa a escrever do que não lhe é próprio. Posso lhes ludibriar brincando com as palavras, realizando jogos semânticos de toda sorte; demonstrar o domínio das letras e expressões, mas essa astúcia intelectual não me pertence mais. Talvez nunca me pertenceu.  Se um dia nessa tentação caí foi por presunção, cuja culpa admito.

Quero descrever a luz que me arde tão forte aos olhos, que me faz vez tão de perto meu próprio coração- o bem e o mal que o habitam. Quero dar palavras ao preço que alguém paga para firmar seus pilares. Um homem sem pilares não é nada- não passa de um lamento, de um choro egoísta... O homem que repete seu choro infantil, sua ânsia pelo leite precoce, pelo afago alucinado. Este não é homem. É menino ainda. É medo sob a pele masculina; é desprezível aos seus próprios olhos. Tem a vileza como arma, a vaidade como escudo e em seus olhos, só em seus olhos se esconde a pouca verdade que há nele.  “Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões”. Para quem foi ferido de morte pela consciência de si, não há retorno possível. Alguns se salvam, não sem pagar seu preço, porque de fato não há remissão sem derramamento de sangue. A salvação custa caro e quem não gostaria de ser salvo? Teria sido fácil se eu aceitasse a salvação comum, oferecida tão sobejamente a quem a ela puder se curvar... Mas não é que me recuso a curvar os joelhos ou a fronte. É muito pior. Desacredito da própria salvação quando constato que não é suficiente ser salvo. Eu quero muito mais. Ser salvo seria pouco para mim. Ser salvo seria para mim a perdição porque erigiria perante mim um herói, e eu não quero mais heróis. Mentira. Talvez esse seja meu maior desejo, e por isso mesmo, conhecendo meu mal obscuro, luto contra ele com tudo que tenho. Luto contra meu desejo de ser salvo a qualquer preço. Ele é minha derrocada, minha morte, o destino cruel que armei secretamente para mim.Quero ser salvo sim, mas quero com  consciência lúcida e dolorosa o suficiente para dela mesma tirar forças para desistir. Abdicar da salvação e abandonar-me ao descanso reservado aos que sabem que a única vitória possível é sobre si mesmo. Todas as outras, a seu tempo, são vaidade e enfado de alma.

2 Dizeres:

Átila Goyaz disse...

Gostei da sinceridade, parabéns pelo texto!
Muito bom passar por aqui.

NOEMI disse...

Obrigada por compartilhar conosco essa alma
linda.
bjs

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