Chega-se num ponto quando não é possível
mais escrever mentiras. O verdadeiro escrito é aquele que nasce de uma
necessidade inescapável, aquele que brota de uma verdade forjada no próprio
fogo de uma existência. Palavras buriladas numa vida que quando se descobre nua
de destinos imagina pelos dedos os destinos que lhe foi negado. Assim é que Minh
‘alma se recusa a escrever do que não lhe é próprio. Posso lhes ludibriar
brincando com as palavras, realizando jogos semânticos de toda sorte;
demonstrar o domínio das letras e expressões, mas essa astúcia intelectual não
me pertence mais. Talvez nunca me pertenceu. Se um dia nessa tentação caí foi
por presunção, cuja culpa admito.
Quero descrever a luz que me arde tão forte
aos olhos, que me faz vez tão de perto meu próprio coração- o bem e o mal que o
habitam. Quero dar palavras ao preço que alguém paga para firmar seus pilares. Um
homem sem pilares não é nada- não passa de um lamento, de um choro egoísta... O
homem que repete seu choro infantil, sua ânsia pelo leite precoce, pelo afago
alucinado. Este não é homem. É menino ainda. É medo sob a pele masculina; é
desprezível aos seus próprios olhos. Tem a vileza como arma, a vaidade como
escudo e em seus olhos, só em seus olhos se esconde a pouca verdade que há
nele. “Dura coisa é recalcitrares contra
os aguilhões”. Para quem foi ferido de morte pela consciência de si, não há retorno possível. Alguns se salvam, não sem pagar seu preço, porque de fato não
há remissão sem derramamento de sangue. A salvação custa caro e quem não
gostaria de ser salvo? Teria sido fácil se eu aceitasse a salvação comum,
oferecida tão sobejamente a quem a ela puder se curvar... Mas não é que me
recuso a curvar os joelhos ou a fronte. É muito pior. Desacredito da própria
salvação quando constato que não é suficiente ser salvo. Eu quero muito mais. Ser
salvo seria pouco para mim. Ser salvo seria para mim a perdição porque erigiria perante mim um herói, e eu não quero mais heróis. Mentira. Talvez esse seja meu
maior desejo, e por isso mesmo, conhecendo meu mal obscuro, luto contra ele com
tudo que tenho. Luto contra meu desejo de ser salvo a qualquer preço. Ele é
minha derrocada, minha morte, o destino cruel que armei secretamente para
mim.Quero ser salvo sim, mas quero com
consciência lúcida e dolorosa o suficiente para dela mesma tirar forças para
desistir. Abdicar da salvação e abandonar-me ao descanso reservado aos que sabem
que a única vitória possível é sobre si mesmo. Todas as outras, a seu tempo,
são vaidade e enfado de alma.
2 Dizeres:
Gostei da sinceridade, parabéns pelo texto!
Muito bom passar por aqui.
Obrigada por compartilhar conosco essa alma
linda.
bjs
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