11/10/2011

Queria fazer poesia.


Rilke certa vez vaticinou que tudo de mais importante para a formação de um escritor encontra-se na sua infância; as memórias mais fortes e a imaginação mais pura e mais poderosa. Como se houvesse algo na infância que se preserva; às vezes pureza, ou um  sentimento pueril quando forças mais poderosas ainda não atuavam na vida psíquica ao ponto de roubar nossa vitalidade. Jacobsen no belíssimo Niels Lyhne apreende essa solidão poderosa da infância e dá força ao seu personagem, mas não sem boa dose de drama a vida trata de perpassar suas esperanças e transformar o protagonista num emblema triste da lucidez melancólica forjada pelo tempo.  Eu mesmo sempre volto a este ponto: uma tentação fortíssima de regressar a algo perdido pelo caminho de minha infância e adolescência. Como se lá eu tivesse sido alguém que eu gostava muito- pacificado de alguma forma maluca que hoje não consigo mais alcançar. Jacobsen traduz precisamente este sentimento de inadequação adulta ao falar de umas das Madames de Niels:
 “ ...e ela correspondeu sem reservas a esse sentimento, como acontece muitas vezes às pessoas que não vivem em paz consigo mesmas e que são levadas a procurar tranquilidade e segurança nos outros”.  

Talvez o que procuremos na infância seja essa opacidade crédula e ingênua que se mostra tão salvífica para alguns e tão destruidoras em vidas menos afortunadas. No meu caso, coube a mim boa fortuna em minha infância onde posso buscar uma riqueza infinita de sentimentos e certezas.  Hoje, entretanto, as trevas pairam sobre a face do abismo e depois de aceitar o perigo da lucidez nem sempre sei o que fazer com ela. Alguém sabe exatamente? A justeza que se deve dar à lucidez? Encanta-me quando vejo em alguns jovens adultos a força desse mesmo olhar- um pedido? Uma afirmação de si?  Segurança? 

  Quisera eu poder escrever poesia hoje.  Só que não sou poeta, não sou artista e ainda assim minha alma teima em fazer esses voos tresloucados... E vou longe à infância para recordar quem eu sou e volto aqui onde estou e o corpo treme ante a realidade nua e crua: e não quero crer que perdi algo. Algo que se plasma somente e alusivamente em meu olhar refletido no espelho.  Uma cândida reivindicação... Silenciosa e que chora abafado.
Jacobsen, mais uma vez, traduz o que se perde da criança quando o adulto tenta ressignifcar a alegria infantil. Impossível momento...

“... Mas ele vivia, inacabado, imaturo, sob formas vagas e fugidias. Era como essas bizarras vegetações submarinas, vistas através do gelo fosco: quebra o gelo em pedaços ou traze à luz das palavras o que antes eram apenas obscuras formas, e o mesmo acontece, isto é, o que agora vês e agora apreendes com nitidez não é mais a escuridão que vias antes”.
 

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