Estou ardendo, grávido de muitas
luas. Prenhe. Sinto a invasão por todos
os lados. Como lidar com uma exigência não discernida que vem de fora, de outro
lugar, de um lugar outro desconhecido? Fazer barreira à luz que cega todo
humano; cobra, cospe, exige, fura e sodomiza.
Ofusca, alucina, ilude, deslumbra.
O que quer o Outro de mim tornar-se uma pergunta boba frente ao homem paralisado
diante do mundo. Ele sabe que não há
nada: não há Outro, não há luz, não há exigência alguma. Mas é tudo muito mais imperioso
que sua razão. Ele cai um pouco, desliza, mas não por completo. Sabe que pode se pôr
de pé, mas aonde colocar-se de pé? Ele sabe bem que basta uma escolha, uma
decisão, um passo além, é tudo tão pouco. Tão pouco que nada é mais penoso que
a escolha desse belo passo. Sim, porque tem que ser belo e elegante. Eu sei que
só a beleza pode salvar numa hora dessas. A beleza fazendo frente ao horror do
mundo; ao meu horror, ao seu horror: ao horror compartilhado. Ai daqueles que
não podem ver o grande horror. Porque entre mim e o mundo há o horror de uma só
escolha: fazer algo belo.

0 Dizeres:
Postar um comentário