26/10/2011

Ardendo


Estou ardendo, grávido de muitas luas. Prenhe.  Sinto a invasão por todos os lados. Como lidar com uma exigência não discernida que vem de fora, de outro lugar, de um lugar outro desconhecido? Fazer barreira à luz que cega todo humano; cobra, cospe, exige, fura e sodomiza.  Ofusca, alucina, ilude, deslumbra. O que quer o Outro de mim tornar-se uma pergunta boba frente ao homem paralisado diante do mundo.  Ele sabe que não há nada: não há Outro, não há luz, não há exigência alguma. Mas é tudo muito mais imperioso que sua razão. Ele cai um pouco, desliza, mas não por completo. Sabe que pode se pôr de pé, mas aonde colocar-se de pé? Ele sabe bem que basta uma escolha, uma decisão, um passo além, é tudo tão pouco. Tão pouco que nada é mais penoso que a escolha desse belo passo. Sim, porque tem que ser belo e elegante. Eu sei que só a beleza pode salvar numa hora dessas. A beleza fazendo frente ao horror do mundo; ao meu horror, ao seu horror: ao horror compartilhado. Ai daqueles que não podem ver o grande horror. Porque entre mim e o mundo há o horror de uma só escolha: fazer algo belo.

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