17/03/2012

Um passo à frente


 Escrever pressupõe, acima de tudo, um autor.  Éric Laurent relata seu primeiro encontro com J. Lacan, que lhe diz: “Todos acabam se tornando sempre um personagem do romance que é a sua própria vida. Para isso não é necessário fazer uma psicanálise. O que esta realiza é comparável á relação entre o conto e o romance. A contração do tempo, que o conto possibilita, produz efeitos de estilo. A psicanálise lhe possibilitará perceber efeitos de estilo que poderão ser úteis a você”.  Laurent faz uma alusão nesta passagem  às sessões curtas de Lacan, o que me fez pensar na relação entre minha vida e a psicanálise neste momento:
À (a) procura de um estilo. Essa foi minha procura desde que comecei a escrever. No início textos longos e verborrágicos que cumpriam uma função catártica. Naquele tempo iniciei a escrever contos; normalmente também longos e metafóricos- uma tentativa de começar uma narrativa. Isso há 6 anos. Iniciei então minha análise. Os contos desapareceram; talvez porque não eram contos ou não compunham meu estilo.
Eu não queria escrever contos; hoje percebo isso com clareza ou talvez tenha adiado esse projeto, quando estivesse além do mito narrativo.
Os contos que escrevi naquela época tinham uma estrutura narrativa de minha própria experiência, ou seja, não eram contos propriamente ditos. Tratei dessa narrativa na analise. Ainda não havia percebido esta relação até agora: o quanto a minha escrita transformou-se, encurtou-se, compactou-se e meu poder de síntese aumentando começa a dar a luz a algo mais próprio, um vislumbre de estilo.
Pensando retrospectivamente vejo o sentido das sessões de análise tão curtas- a narrativa verborrágica e interminável estava sendo convocada a realizar uma torção, eliminando os excessos, as reclamações, as intermináveis demandas de compreensão. Uma narrativa, de certa maneira, pode ser tomada como uma fuga do silencio e do vazio da experiência de desejar, esquiva esta que hoje se torna cada vez mais dolorosa quando sou obrigado, no pouco tempo concedido por meu analista, a fazer algo com o mortífero gozo da pulsão de morte- sempre silenciosa.  Outro sintoma curioso é meu desinteresse, quase por completo, por poemas. Sempre os achei enfadonhos, ao contrário dos romances para os quais dediquei minha leitura desde muito cedo. Li pouquíssimos poemas.  Depois de ler a experiência de análise de Éric Laurent percebi o sentido da relação entre psicanálise e poesia; entre o ofício do psicanalista e o do poeta. Lacan chega a afirmar que toda linguagem analítica deveria ser poética. Paralisei intrigado: e agora? Logo eu que não gosto de poesia!  Vejam  a encruzilhada na qual me encontro: um poema tem métrica, exige esforço, trabalho duro na difícil tarefa de em poucas palavras fazer uma transcrição de uma exigência que não é da ordem racional; é algo que vem do corpo e da relação que cada um de nós mantém com seus torpores mais exigentes.   Não é a toa que os poetas estão sempre um passo à frente da psicanálise. E muito menos é por acaso que agora sinto uma urgência por ler poesia...Andar com um livro de poemas por onde eu vá, lê-lo, exibi-lo, penetrá-lo. 
Talvez eu nunca escreva poesia, mas a verdade é que não se trata de escrever, mas de fazer poesia.  Meu trabalho agora está claro:  revelar o conto que se esconde no romance de minha escrita.  Meu esforço para dar uma saída só minha para um dilema humano comum a todos nós:

14/03/2012

O Estado Laico


prometi, vou cumprir:

 O Estado é LAICO OU SECULAR quando ele é oficialmente neutro em relação às questões religiosas. Ele não deve apoiar e nem se opor a nenhuma religião. Os cidadãos desse Estado receberão direitos e tratamento iguais independente de sua religião e é vedado ao Estado dar preferência a qualquer cidadão por motivo de religião.  O direito a livre escolha e expressão de sua religião é uma garantia de todos. Só, meus amores, que o que ocorre hoje é que os religiosos de plantão usam essa garantia para contaminar o Estado com seus preceitos religiosos, inclusive utilizando seus livros sagrados para fundamentar suas ideias. O Estado não tem religião e representa todos os cidadãos, inclusive aqueles que optam por não ter religião alguma;. e por religião que fique claro que o Cristianismo não é a única e muito menos tem privilégio algum no Brasil- alias, a religião Afro-descendente tem muito mais enraizamento em nossa cultura do que o protestantismo ou catolicismo que são ambas religiões importadas da Europa. Outra coisa fundamental: o fato do Estado ser laico não significa que  ele deva promover então todas as religiões.Não. O Estado não deve promover nenhuma religião; nem através de seus órgãos e nem deveria fazê-lo nas dependências institucionais, daí porque a briga para retirar símbolos religiosos das instituições públicas. Problemas de governo e de políticas públicas devem ser decididos com base em critérios seculares de racionalidade e com o auxílio do aparato técnico do Estado; com base em pesquisas e critérios científicos amplamente comprovados e não em crenças, livros sagrados ou pelo costume de qualquer setor religioso. Vamos dar um exemplo?

O caso do aborto. O Estado garante que nenhum  cidadão que por sua convicção religiosa não queira aborta serja obrigado a fazê-lo. Mas, por que impedir que outras pessoas com outras convicções ou sem convicções o façam? Além disso, o Estado deve ser livre para discutir a questão do aborto livremente baseado em critérios racionais e não em critérios meramente morais e religiosos. Sobre isso podemos levantar várias discussões de cunho ético que não necessariamente precisam passar pelas crenças e convicções religiosas. Da mesma forma sobre experiências genéticas e  dessa mesma ordem sobre as quais há inúmeros artigos no campo da filosofia que discutem essa questão sem utilizar argumentos religiosos. Ou seja, tem como se debater a questão sem dizer que abortar é pecado ou Deus não gosta, ou Alá, ou Chico Xavier ou porque uma fada madrinha desaprova o aborto.

Outro caso é a homossexualidade, que tem sido tratada quase como um problema de saúde pública pela bancada evangélica. Meus caros, se vc é evangélico ou católico ou sua religião lhe proíbe de ser gay ou porque simplesmente vc não tolera a ideia de uma relação homossexual vc só tem uma escolha: não seja. Viva sua crença, fé ou maluquice. Mas me dê o direito de dizer que sua fé é tacanha, que seu Deus é uma falácia e que sua religião é uma grande bobagem! Isso é Estado Laico. vc tem direito a professar sua fé e eu tenho direito de professar a minha ou professar a minha não-fé! Mas nem eu e nem você podemos impor aos outros nenhuma convicção. A bancada evangélica teme que os gays transformem o Brasil no país gay. Vamos lá:

1. os gays querem simplesmente o direito de expressarem sua homossexualidade e terem os mesmo direitos que todo cidadão brasileiro, isso envolve uma dezenas de coisas que eu me furto a comentar porque não subestimo a inteligência de alguns.
2. ninguém se torna gay por exemplo ou imitação. E devo também acrescentar que os melhores amigos de um gay são as mulheres heterossexuais e uma das  fantasia sexuais mais bombásticas de um gay   é ser possuído por um homem hétero ( e de  muitos"héteros" devo dizer) . Em que mundo os gays vão querer acabar com homens e mulheres héteros? Não se ganha nada com isso.
3.  O Brasil e o mundo já são gays. Olhe ao seu redor. Aliás, olhe bem perto de vc; eles estão aí, sempre estiveram, há milênios estão em todas as formas e estratos da sociedade. A homossexualidade é tão velha quanto o mundo. Ela não está se proliferando, ela só está ganhando voz e espaço. O assunto é falado e debatido hoje com liberdade e isso faz com que as pessoas se sintam mais a vontade para expressar sua homossexualidade. Mas nem todos. Ainda há muitos vivendo na clandestinidade: uns por medo, outros por canalhice.

A Igreja pode pregar contra os gays. À vontade. Mas só isso- pregar e ensinar seus discípulos      (se puderem) a abandonarem suas práticas consideradas pecaminosas. Isso o Estado jamais vai tirar das religiões. Mas que os pastores e padres e todos os outros líderes religiosos permaneçam em seu devido lugar ensinando e cuidando do seu rebanho. O Brasil não é rebanho de ninguém.
Agora me dirijo especificamente à igreja evangélica. Um dos motivos porque vocês se voltaram para a política, além da ganância e vaidade, é que a fé de vocês acabou; o poder de sua religião terminou. Vocês não são capazes de transformar a sociedade pelo poder de sua mensagem e nem pela vida que vocês levam. Por isso mesmo, vocês foram entregues e se entregaram à política. Nas palavras do próprio Cristo vocês serão agora pisados pelos homens, o que na verdade já acontece cotidianamente nesse país. No passado ser crente era motivo de vergonha; era sinônimo de gente burra e despreparada. Depois a coisa mudou- ser crente era legal; tínhamos artistas e gente importante virando crente. Era moda ser crente e por isso mesmo bonito. Hoje a coisa está mudando de novo. É feio ser crente; ser crente voltou a ser motivo de chacota e sinônimo de burrice intelectual. A culpa é toda de vocês. Os evangélicos, embriagados pelo poder, perderam a capacidade de dialogar. Hoje vocês só pontificam, lutam e reivindicam seus "direitos" no campo da política e da política mais suja e sórdida. Um dia eu também já fui evangélico, mas abandonei o barco quando ele afundava. Hoje só restam os destroços e um monte de gente ao redor caçando seus tesouros perdidos.
Uma das funções do Estado Laico é evitar que alguma religião exerça controle ou interfira em questões política. Isso eu sei, já é utopia, mas eu não sei você... Mas eu preciso de uma utopia pra viver. Essa é hoje minha utopia preferida. 

06/03/2012

O homem e o amor.

Lacan sobre o amor: o homem exibe sua impotência e a mulher sua incerteza.

Qual homem na vulnerabilidade do amor nunca  sucumbiu á inevitável impotência? Para alguns, basta a proximidade do amor para depor as armas. Talvez no cerne de sua impotência haja um desejo vertiginoso de ser amado e o medo de não ser capaz de amar na mesma proporção. Ou quem sabe, ao lado de sua impotência esteja o medo de que o amor lhe roube algo muito precioso; quando convocado a se afirmar falicamente o antigo temor   de castração volte a lhe aterrorizar: nunca devemos esquecer de que onde há amor está presente também a ambivalência afetiva na força de um afeto como o ódio. Aqueles que mais nos amaram foram também os algozes de nossa castração.
 Segundo Lacan, o homem é um escravo do semblante e por isso, obrigado a exibir uma virilidade que ele não controla . A mulher, por outro lado, aproxima-se do amor mais como uma prova de verdade- o amor para o homem é uma prova de potência, para a mulher é uma busca pela verdade- dela e do parceiro. Não é a toa que muitos homens que sabem algo sobre o amor são rotulados de homens de alma feminina- prova de que é sabido de todos que as mulheres tem um saber sobre o amor que nos escapa. E porque nos escapa tentamos dar provas de que também podemos amar. O problema é que alguns  ao tentar exibir sua capacidade de amar descobrem que ainda sabem pouco sobre o amor... Confesso que o universo masculino também é um grande mistério para mim. Por muito tempo o mistério esteve ao lado da mulher, no entanto,  abraçar esse mistério  de dentro do mundo masculino pode ser uma saída viável  da impotência de amar que aflige tantos  homens. 

E você,  também tem medo de amar?



14/02/2012

Whitney Houston

A recente morte de Whitney Houston me abalou profundamente; a cena dessa mulher morta numa banheira, com toda sua arte, me deixou devastado. Resolvi prestar uma homenagem a ela e a todas as mulheres que morrem de amor..Aqui no Jornal O Povo:

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/02/14/noticiasjornalopiniao,2783493/amy-whitney-e-madonna-quando-a-dor-e-maior.shtml

05/02/2012

Desespero.

Quando você finalmente descobre o que quer,  chega o desespero absurdo. 
Perceber que o que você quer está nítido, bem na sua frente, mas não é fácil; requere que você abandone as tentativas. O que você quer pode demorar, pode nunca chegar, mas é o que você quer e só isso será suficiente. Não é questão de querer, é desejo.
O desespero pode ser tão desafiador. 

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