Escrever pressupõe, acima de tudo, um autor. Éric Laurent relata seu primeiro encontro com
J. Lacan, que lhe diz: “Todos acabam se tornando sempre um personagem do
romance que é a sua própria vida. Para isso não é necessário fazer uma
psicanálise. O que esta realiza é comparável á relação entre o conto e o
romance. A contração do tempo, que o conto possibilita, produz efeitos de
estilo. A psicanálise lhe possibilitará perceber efeitos de estilo que poderão
ser úteis a você”. Laurent faz uma
alusão nesta passagem às sessões curtas
de Lacan, o que me fez pensar na relação entre minha vida e a psicanálise neste
momento:
À (a) procura de um estilo. Essa
foi minha procura desde que comecei a escrever. No início textos longos e
verborrágicos que cumpriam uma função catártica. Naquele tempo iniciei a
escrever contos; normalmente também longos e metafóricos- uma tentativa de
começar uma narrativa. Isso há 6 anos. Iniciei então minha análise. Os contos
desapareceram; talvez porque não eram contos ou não compunham meu estilo.
Eu não queria escrever contos;
hoje percebo isso com clareza ou talvez tenha adiado esse projeto, quando
estivesse além do mito narrativo.
Os contos que escrevi naquela
época tinham uma estrutura narrativa de minha própria experiência, ou seja, não
eram contos propriamente ditos. Tratei dessa narrativa na analise. Ainda não
havia percebido esta relação até agora: o quanto a minha escrita
transformou-se, encurtou-se, compactou-se e meu poder de síntese aumentando
começa a dar a luz a algo mais próprio, um vislumbre de estilo.
Pensando retrospectivamente vejo
o sentido das sessões de análise tão curtas- a narrativa verborrágica e
interminável estava sendo convocada a realizar uma torção, eliminando os
excessos, as reclamações, as intermináveis demandas de compreensão. Uma narrativa,
de certa maneira, pode ser tomada como uma fuga do silencio e do vazio da
experiência de desejar, esquiva esta que hoje se torna cada vez mais dolorosa
quando sou obrigado, no pouco tempo concedido por meu analista, a fazer algo
com o mortífero gozo da pulsão de morte- sempre silenciosa. Outro sintoma curioso é meu desinteresse,
quase por completo, por poemas. Sempre os achei enfadonhos, ao contrário dos
romances para os quais dediquei minha leitura desde muito cedo. Li pouquíssimos
poemas. Depois de ler a experiência de
análise de Éric Laurent percebi o sentido da relação entre psicanálise e
poesia; entre o ofício do psicanalista e o do poeta. Lacan chega a afirmar que
toda linguagem analítica deveria ser poética. Paralisei intrigado: e agora? Logo
eu que não gosto de poesia! Vejam a encruzilhada na qual me encontro: um poema
tem métrica, exige esforço, trabalho duro na difícil tarefa de em poucas
palavras fazer uma transcrição de uma exigência que não é da ordem racional; é
algo que vem do corpo e da relação que cada um de nós mantém com seus torpores
mais exigentes. Não é a toa que os poetas
estão sempre um passo à frente da psicanálise. E muito menos é por acaso que
agora sinto uma urgência por ler poesia...Andar com um livro de poemas por onde
eu vá, lê-lo, exibi-lo, penetrá-lo.
Talvez eu nunca escreva poesia, mas a
verdade é que não se trata de escrever, mas de fazer poesia. Meu trabalho agora está claro: revelar o conto que se esconde no romance de
minha escrita. Meu esforço para dar uma
saída só minha para um dilema humano comum a todos nós: